Andando a pássaros largos…
02 mar 2012 1 Comentário
O bicho homem tem um pouco de todos os bichos dentro de si. Talvez uns se manifestem mais, outros menos. Ou então se perceba a expressão específica de um animal predominante por um determinado tempo e depois outros, numa mudança natural, simbólica e necessária.
Como ainda vivemos a ressaca das conseqüências de uma idéia concebida no passado de que o homem e natureza seriam “coisas” apartadas e onde a natureza estaria a serviço para a feroz exploração sem limites pelo ser humano,muitas vezes não percebemos estas recorrentes semelhanças com o comportamento animal. E o que é pior, condenamos ou ignoramos nossos instintos mais genuínos, naturais e animais, por julgar serem primitivos ou inadequados.
Por outro lado, acho que isso até explica um pouco do porque gostamos tanto de lavar o rosto, saborear a brisa leve no corpo, se divertir com o vento a pentear nossos cabelos.
Recentemente olho e vejo. Há pássaros por todo o lugar. Na estampa do velho colchão que ainda uso para assistir TV na sala. No desenho discreto da camiseta branca da menina no metrô. Na floreira de casa – brincando perigosamente com minha gata caçadora. Na capa do livro que aleatoriamente retiro da estante na livraria… Em muitos outros olhares e aqui comigo.
E, por todos esse lugares insisto no instinto. Para me libertar com desenvoltura pelo tempo. Ter a consciência fresca de cada movimento. Entregar meu corpo plenamente. Respirar adequadamente. A cada tomada de ar contente. O planar confiante. Viagens de um navegante. Bailando pelo vento. Deixando ir. Passando. Ir levando. Andando e observando.
A canção é de um pássaro, sem cor, nome ou tipo. Apenas um bicho alado com asas e bico. No meu coração ele entrou, cantou e muitas dúvidas e queixas ele espantou.
O Palhaço – O Filme
30 nov 2011 2 Comentários
em pitadas e pinceladas, Uncategorized
“O gato gosta de leite. O rato gosta de queijo. E eu… SOU Palhaço!”
A estrada, o sol a pino e os carros coloridos se deslocando em meio a terra seca de um marrom alaranjado, quase férreo. O horizonte monótono do canavial. A poeira que se levanta vigorosa. Elementos reais desse Brasil gigante que emolduram a paisagem daqueles que fazem de seus lares as paragens incertas da viagem. Na medida em que o ajuste de foco da câmera vai se mostrando, já é possível mergulhar ou ao menos intuir as profundezas da imaginação que se vai navegar. Entretanto sem a possibilidade de prever o que vem a seguir. São muitas as surpresas guardadas pelo caminho.
As mensagens do longa metragem “O Palhaço”, dirigido e protagonizado por Selton Mello são reveladoras e tocantes, pois nos trazem à tona a capacidade e a responsabilidade de nos transportarmos para além mar. Onde podemos avistar o horizonte de nós mesmos bem de frente. O palco em arena todo iluminado no qual o personagem principal da cena é o nosso Eu mais pelado e exposto, mesmo que fantasiado. A ponte invisível, a linha tênue, onde possivelmente se perde e se encontra o fio da meada, a razão de viver, a alegria e a espontaneidade de ser quem se é.
A metáfora do circo se encaixa perfeitamente. A vida é sim colorida, estimulante, desafiadora, alegre e triste. Nossas experiências e aprendizados convivem com os contrários necessários. O calor e o frio. A fartura e a escassez. O medo e a coragem. Os sorrisos e as lágrimas. O fácil e o difícil. Os ganhos e as perdas. A lona só se levanta com a força e o esforço sincronizado da coletividade. Todos aqueles que partilham de algo conosco são família. E os bons ventos da imaginação e da centelha divina que arde em nosso ser e que tudo pode, nos revelam as respostas da maneira mais inusitada e coerente, ao mesmo tempo.
É natural nos questionarmos sobre quem somos e sobre o nosso papel no mundo que estamos inseridos. É do bicho homem querer entender tudo isso racionalmente. É do ser humano ter que viver a matéria e o fragmentado para reconhecer e voltar a ser o sutil e a totalidade. Assim como é do espetáculo da vida existir mágica. Assim como é do palhaço saber rir de si mesmo antes de fazer outros rirem. Assim como é do rato gostar de queijo, o gato de leite… Enfim. Cada um tem um papel divino para exercer nesta vida e neste tempo que se escolheu viver. A busca por encontrá-lo e praticá-lo pode não terminar nesta travessia se você estiver concentrado em buscar essa resposta fora de si mesmo. Muitos já disseram que sabemos todas as respostas para as perguntas que temos. Quando mudamos a chave interna da complicação e passamos a pensar e agir de maneira simples, compreendemos que mesmo para os nossos problemas existenciais mais complexos existem soluções simplificadas. Pode-se estar precisando de um pouco de descanso, esperança, de um tempo só para si, um novo documento de identidade, um sutiã novo ou de um ventilador. Simples assim.
Por uma Pedagogia Cidadã de Cooperação
09 nov 2011 3 Comentários
Adriano Galhardo estava certo quando compartilhou o convite com a sua turma de Jogos Colaborativos da UMAPAZ este mês. Fábio Brotto, uma referência em jogos colaborativos e pedagogia da cooperação para uma cultura de paz no Brasil, daria um jeito de brincar e estimular algum jogo conosco. Mesmo sendo muitos do auditório do Masp hoje, para o último Forum do Ano organizado pelo Instituto Palas Athenas, foi possivel vivenciar e praticar a cooperação. Nos abraçamos, cantamos e ultrapassamos a comum barreira de não perceber a si mesmo e o outro. Mesmo aquele que está sentado ao seu lado. Quantas vezes ignoramos tudo isso?
A apresentação seguiu um caminho bastante interessante e fazendo uso de citações extremamente pertinentes Fabio Brotto falou com propriedade de coisas simples e inovadoras, ao mesmo tempo. Inovar para ele não significa fazer algo novo e sim ter a ousadia de fazer aquilo que está latente em si mesmo, realizar o seu presente para o mundo. Nos conduzindo calmamente para um olhar humano e sensivel onde, antes de mais nada, é preciso mergulhar em si mesmo para poder oferecermos ao mundo o nosso presente nos incentivou a refletir sobre aquilo que somos, os dons que temos e o que viemos fazer aqui.
Das citações que coloriam e davam vida e sentido a sua apresentação é pertinente destacar um proverbio africano que diz: “Sozinho vi coisas maravilhosas, mas nenhuma era verdadeira”. Juntos podemos muito mais. E ao compartilharmos olhares e experiências aumentamos as possibilidades da mudança que queremos ver no mundo, seja ela qual for: uma cultura de paz, uma cidadania planetária ou o equilibrio ambiental.
Naomi Drew, outra referência em jogos colaborativos e pedagogia da cooperação já disse uma vez que a Paz é um processo ativo de cooperação. Cooperar faz parte da nossa natureza humana. E, graças a um esforço positivo de muito, ela já não aflora mais somente durante os tempos difíceis. A colaboração entre as pessoas está cada vez mais visivel nessa época de transição em que vivemos. Onde o modelo antigo já não nos atende por completo e as inquietações e iniciativas já anunciam um caminho de aprendizados para o que virá a ser um novo modelo de convivência em sociedade.
Cada um de nós, cada um e cada uma, é jogador das inúmeras dinâmicas e desafios que essa vida cheia de incertezas e imprevisibilidade nos apresenta a cada instante. Ela, a vida, é soberana em nos ensinar que justamente as nossas diferenças são pontes de ligação que nos ajudarão a sintonizar consciências em direção a essa cultura de paz que se constroi. Mesmo que para isso seja necessário correr muitos riscos.
Nessa onda de constante transformação, do mundo e de nós mesmos, mais do que ouvir e falar é necessário praticar. Que sejamos capazes de largar tudo, desapegarmos dos papéis que temos para transitar entre inúmeras possibilidades de atuação, de assumirmos nosso presente e ofertar isso ao mundo e principalmente de termos a coragem de vivenciar a morte do que já não nos serve mais e fazer aquilo que nos cabe fazer, a nossa pequena grande parte. Mesmo sem ter a certeza que desfrutaremos do novo. O que acontece agora é exatamente o que é possivel de ser. Se cada um de nós fizer o melhor de si, aqui e agora, já teremos muito! Só nessa direção ‘será possivel “VEM SER” juntos!
Não se trata de superarmos a dicotomia do bem e do mal, da luz e da sombra, do ganha-perde. Muito menos de conquistar o suposto e iludido equilibrio do ganha-ganha. É preciso irmos além e transcender isso para vivenciar a plenitude do “VEM SER”, onde cada um poderá, na sua individualidade sagrada cooperar com todos e fazer a sua insubistituível parte no todo, porque cada SER é um e uno, ao mesmo tempo. O convite é esse: Brincando, colaborando, jogando junto cada um pode vir a SER o que É!
OBS: Para quem tiver interesse de acessar o conteúdo na integra, a organização do evento estava gravando tudo e irá e disponibilizar o material completo da palestra no site: http://www.comitepaz.org.br/
NAMABARU: Onde o “de sempre”, sempre surpreende!
15 out 2011 2 Comentários
Você já desfrutou do prazer de chegar num lugar onde você possa falar: “por favor o de sempre” e ter a certeza que, mesmo conhecendo o menu e o prato que será servido, você será novamente surpreendida? No Namabaru é assim.
O atendimento atencioso, os sabores e aromas, o ambiente acolhedor, os detalhes - do cardápio até a apresentação dos pratos – impressionam.
Segundo os proprietários, o NamaBaru é o resultado de um casamento duplo entre Talita Vasconcelos e Ique Lopes, respectivamente no salão e na cozinha. Depois de colecionarem quatro invernos Londrinos e muitas viagens pela Europa no currículo decidiram, para a nossa sorte, abrirem um restaurante em São Paulo.
Toldinho preto com um nome intrigante e sonoro estampado na cor rosa. Na entrada uma lousa com letras caprichadas em giz colorido apresentam alguma novidade gastronômica, sugestão do Chef ou o prato executivo do dia. As plantinhas na varanda, o cheirinho de café e a simpatia da Talita e do Andre são ingredientes substancialmente convidativos para entrar. André junto com a Talita fazem bonito no salão. Dá gosto de ver e ouvir suas sugestões e dicas sobre o menu. Na dúvida pode deixar a escolha do prato na mão deles. Não vão se arrepender!
O espaço é intimista e acolhedor com uma cozinha contemporânea asiática, colorida e saborosa onde todos os pratos são individuais. Há opções fantásticas para vegetarianos como eu. Aproveitem! Abre de 3a. a Domingo, por enquanto apenas para almoço.
Não posso negar que virei cliente assídua. Praticamente toda semana estou me deliciando por ali e apresentando para amigos queridos. Para quem for conferir: preparem-se para uma deliciosa aventura gastronômica onde naturalmente seus cinco sentidos serão estimulados com criatividade e profissionalismo.
O meu de sempre: Entrada de rolinhos de couve orgânica, shitaque e alho poro; seguido pelo prato principal intitulado no cardápio por “Kembang Kol Kari”(Couve flor cozida salteada com cebola, alho, castanha de Caju, leite de coco e curry em pó) ou o “Thai Curry Vegetariano” (Lichia, tofu, castanha d’água e tomatinho cereja com leite de coco) ambos acompanhados de arroz jasmim. Para beber chá gelado natural do dia. (exemplo: Chá preto com lichia e abacaxi). Hum… Só de lembrar já dá água na boca!
As sobremesas são um caso a parte. Criações exclusivas de sorvetes artesanais e outros doces são assinadas pelo Ique. A panacota de leite de coco com calda de maracujá e o brulê de lichia são tão surpreendentes quanto os pratos quentes e mesmo para mim, uma pessoa não muito chegada em doces, se tornam irresistíveis. Dica: Peça o sorvete de graviola, banana e água de coco se for um dia quente! Já para dias a pedida é a nova criação do Chef, na foto ao lado. Uma espécie de brounie com caramelo, chocolate e castanhas com sorvete de canela. Hum…. Bom apetite!
Hoje o sol saiu!!
05 jul 2011 1 Comentário
Parece que cheguei em Puno junto com o mal tempo. Nossa! Fez um frio dolorido durante dois dias que foi de matar. Sair de dentro do hotel? Nem pensar. Para se ter uma idéia do frio até a comunidade local estava se queixando… Vento. Chuva. Uma névoa gélida encobriu toda a cidade ontem. Só hoje o sol saiu. Em virtude desse mal tempo e dos problemas causados nas luzes da pista de pouso do aeroporto de Juliaca durante as manifestações da semana passada, muitos vôos da Taca foram cancelados. Sem visibilidade inviável pousar por aqui. Ontem e hoje fiquei aguardando os passageiros que não chegaram. Depois de muita confusão de aeroporto alguns decidiram ir direto para Cuzco. Outros persistiram e chegarão aqui em Puno amanhã. Ebaaaaa!!
Depois de dois dias encolhida debaixo das cobertas e saindo apenas para o estritamente necessário o tempo me encorajou. A tarde de Puno estava convidativa hoje. Céu azul, muita gente na rua e uma sensação térmica bem agradável. Caminhando foi possivel até tirar o Anorak, vejam só que delícia! rs! Depois de almoçar uma comidinha bem leve (tabule de quinua com papas) decidi caminhar até encontrar as margens do Lago Titicaca. O centro Turístico de Puno e a Plaza de Armas distam cerca de 20min de caminhada até o porto, de onde saem os barcos privados e coletivos para as principais atrações: Isla de Uros, Amantani e Taquili. O sol estava tão agradável e acolhedor que acabou me convencendo a permanecer ao ar livre até o seu último ato. Desisti de voltar ao Hotel só para pegar os óculos escuros. Vou aproveitar todos os minutinhos que restam desse sol.
Puno é uma cidade que se desenvolveu as márgens do Lago e, devido a limitada faixa de terra entre a orla e as montanhas, muitas casas acabaram escalando terrenos mais íngremes, morro acima. As casas, em sua maioria não tem acabamento. Por isso, de longe e durante o dia, os conjuntos urbanos se misturam com o amarelo e o marron do capim que cobre as montanhas dando a impressão de que a cidade é bem menor, pois praticamente se funde com a paisagem natural. Contra a luz do sol, que se esconde cedo por aqui, é até difícil ver onde está o limite das casas da cidade.
Caminhando pelas ruas estreitas Puno se revelou mais colorida, múltipla e viva. Personagens reais iam se apresentando para mim a cada esquina. A moça que vendia pipocas na sua bicicleta, o senhor de chapeu de palha ensinando receitas com folhas de coca para um menino de gorro de lã, as crianças alegres que corriam pelas calçadas gritando. Todos os pequenos detalhes começaram a me chamar a atenção, um a um e depois todos ao mesmo tempo. Depois de cruzar o trilho do trem e ser quase atropelada por um moto-taxi cheio de caixas de papelão fui surpreendida por uma feira imensa. Não era possivel ver seu fim. Entro ou não entro? Será? Entrei! Foi necessário andar por 4 largos quarteirões para conseguir avistar a última barraca.
Me senti um peixe fora do aquário para não dizer um ET no meio daquele corredor infinito de barracas dos mais variados tipos de produtos e serviços. Não identifiquei um turista por ali. Bacias de plástico iguas as da minha avó (diferentes colores senhora!) panelas, produtos de limpeza, frutas, malhas (diferentes colores senhora), calça jeans, gorros e luvas, sapatos, tênis, moleton, jaquetas, panos, vassouras, lã, criança, cachorro, galinha, codórna… Tinha de tudo!
Foi ali, com o olhar curioso, onde percebei de perto a beleza e a originalidade das vestimentas das mulheres. Não vi uma saia igual entre elas. Mantas e casacos extremamente coloridos, chapéus de palha com adornos em flores e uma alegria na face contagiante. As mulhers que não estavam rindo, conversando ou comendo estavam bordando. Dedicadas e extremamente concentradas muitas nem perceberam minha presença estrangeira.
Entusiasmada com aquele universo particular voltei a caminhar em direção ao porto. Passei pelo mercado de artesania compromissada a não entrar já que o dinheiro para o dia estava contado. Quanto mais perto chegava do porto menos gente eu encontrava. Lembrei de terem me dito que havia regiões em Puno não tão seguras e por isso fiquei mais alerta. Já bem próximo ao pier avistei gringos como eu, crianças e um movimento mais familiar. Relaxei.
A imensidão das águas lembra mesmo o mar. Vários barcos começaram a chegar. Turistas retornando de Uros. Percebi pelo local onde a embarcação decidiu aportar. Algumas fotinhos e já era hora de voltar. No caminho de volta em direção a calle Lima notei que vários locais também fazem uso de uma espécie de bike-taxi. Resolvi arriscar. Baratinho. Mas é legal negociar o preço do trajeto antes de embarcar. Sr. José foi quem pedalou para me transportar.
Valeu o passeio. Agora é novamente descançar. Curtir o tempo do lugar. É um outro tempo o tempo deste lugar. Mas amanhã chega o meu grupo por aqui e o tempo volta a voar.
Onde estão as cercas?
03 jul 2011 Deixe um comentário
- Tudo isso é de uma pessoa só? Perguntei ao Jim logo que avistamos o Vale Sagrado num dos mirantes da estrada que liga o centro de Cuzco a região de Urubamba.
Ele me respondeu que não. – E onde estão as cercas então?
No Vale Sagrado, uma região extremamente fértil e responsável pela produção dos melhores tipos de milho do mundo, cada um sabe qual é sua terra. Cercar pra que? Antigamente habitado pelos Incas a relação mais comunitária no contato com a terra acabou se perpetuando entre os povoados que se desenvolveram por aqui. Quando chega a época de plantio ou da colheita a comunidade se reune para debulhar o milho em conjunto. Todo mundo se ajuda. É bonito de ser ver. Caminhado por ali a sensação é de que todos tem algum grau de parentesco. Até nós, os estrangeiros, somos tratados como gente da família quando nos aventuramos a conversar mais demoradamente com os locais.
- “O cara que vai pra cidade volta e cerca sua terra. Mas ai, quando ele precisa plantar não vai receber ajuda de ninguém.” Jim me contou depois de avistármos, depois de um longo tempo na estrada, um terreno murado com tijolos de abode produzidos localmente. Não havia mesmo ninguém dentro daquele pedaço de terra isolado.
Nessas baixadas, ao longo do Rio Urubama é possivel avistar de perto o trabalho em comuna. A labuta dura o dia todo. As vezes mais de um dia. Pois o milho precisa secar primeiro e depois ser debulhado. A maioria da produção desse milho é exportada para o Japão. O pouco que fica aqui é saboreado com muito gosto. Pode ser cozido só com sal ou também srvido com um queijo tipo mineiro. Hum… dá água na boca só de pensar. Quem vier por essas bandas não pode deixar de provar o choclo, um milho com grãos enormes e carnudos. Tenho que confessar: muito mais gostoso do que o milho que comemos no Brasil.
- Sabe… No Brasil o nosso milho não é assim tão grande. Os grãos são mais amarelados e bem pequeninos – eu tentava explicar para a senhora que retirava o “milhão” da panela de água fervendo.
Adivinhem o que a senhora me respondeu? Traduzindo: “ia ia ia… sei sim… esse milho deve ser o que nós damos para as galinhas…rsrs! Pensei em logo dizer que também são gosostos… Mas acabou que eu nada falei.
Subindo para o Altiplano (Cuzco – Puno)
02 jul 2011 Deixe um comentário
Acordei atrasada. Cuzco amanheceu chovendo. Coisa rara para a época. Talvez por isso, ou simplemente por ser amável, a recepcionista do hotel se despediu de mim dizendo que Cuzco estava chorando a minha partida. Agradeci gentilmente. Um pouco de umidade numa região tão seca não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário… A maior parte dos que chegam a Cuzco sentem essa secura e também alguns sintômas como dor de cabeça, enjôo e dificuldade de digestão por conta da altitude.
No ônibus da Inka Express, as 7h30 da manhã, já se podia ouvir diferentes idiomas. Num instante, logo após o embarque, aquele território ambulante já poderia ser considerado uma amostra significativa dos povos dos quatro cantos deste mundão. Indiamos, Americanos, Franceses, Suecos, Colombianos, Australianos, Japoneses, Brasileiros e Peruanos. Foram esses que rapidamente pude identificar. Depois descobri que também estavam presentes Canadenses e um Israelense. Todos nós estavamos ali reunidos para seguir viagem em direção a Puno, considerada a capital folclórica do Peru. Essa região do Altiplano reune uma variedade enorme de danças típicas e a maior comemoração local acontece em fevereiro, com concursos e shows pelas ruas da cidade e povoados camponeses.
Não se trata de uma viagem qualquer. Muito menos um simples deslocamento. Inka Express Turist Transportation VIP Service está destacado no bilhete rodoviário. O slogan que vem depois tão pouco é exagero. Durante a viagem é possivel desfrutar das maravilhas do Sul sim. As paisagens do Altiplano, a estrada rodeada pelas montanhas de diferentes direções, os nevados, os animais que pastam pelo capim amarelado, o trilho do trem, as casinhas espalhadas… Tudo se vê pela inevitável moldura embassada das janelas. Sensíveis à calefação e ao calor humano que constrata com o ar frio de fora os vidros transpiram e dão ao visual um ar ainda mais bucólico e especial.
A empresa de transporte fornece um guia bilíngue (inglês e espanhol) e realiza várias paradas ao longo do percurso. Importantes sítios arqueológicos e igrejas são visitados: Raqchi – Um enorme tempo Inca contruido para o Deus Huiracocha que pelo tipo de contrução mista me pareceu ter sido frequentado por todas as castas do Império Inca (Foto) ; Andahuaylillas – uma belíssima igreja considerada a “Capela Celestina das Américas” pelo conjunto de pinturas que apresenta em seu interior – e o Museo de Pukara com importantes artefatos e gigantes esculturas em pedra representantes de uma cultura pré Inca. Até almoço incluido tem. Almoço com comidas típicas, musica local ao vivo e claro, muito mate de coca también!
O ponto mais alto da viagem é chamado de La Raya e fica a 4335m de altitude. A parada é rápida, pois o frio é intenso. Nem todos saem do carro. Naquele dia em especial havia nevado pela manhã. Apaixonada pelas montanhas e pela altitude quase fico para traz. Tive que sair correndo em direção ao ônibus já em movimento. Eeeei! Me esperem!!! Quase perco o finzinho da viagem. Ufaa! Provavelmente eu iria congelar ali bem perto das montanhas que abrigam as nascentes do Rio Urumamba e Amazonas. Nem gosto de imaginar…
A partir da Raya o percurso até Puno é descendente. Vamos baixando pelo Altiplano até 3.800m, onde está localizada a cidade de Puno. Foi só ali que o Sol deu as caras, mas mesmo assim não amenizou o frio e nem o impiedoso vento.
Chegar em Puno é ver o capim amarelado se fazer horizonte. É se surpreender com o tamanho e beleza do Lago Titicaca, o maior e mais alto lago navegável do planeta e também responsável pelas boas condições para o desenvolvimento de uma farta agricultura em suas margens. Sua extensão também parece não ter fim na sua imensidão azul.


